segunda-feira, 20 de março de 2017

quinta-feira, 16 de março de 2017

O dia em que a terra parou



16 de Março de 2017. Ontem, dia 15, foi chamado pela imprensa como "o dia em que a terra parou", em alusão às paralisações que tomaram as ruas, órgãos e empresas públicas espalhadas pelo país. Todas essas pessoas - jovens, velhos, adultos, crianças, funcionários públicos ou privados -, protestavam juntos contra a aprovação da Reforma à Previdência. 

Como petista - esquerdopata, mortadela ou reacionária, como alguns gostam de me chamar -, eu achei lindo. Foi lindo ver as ruas pintadas de vermelho, gritando em uníssono que não - não!! -, não deixaremos que roubem nosso futuro para alimentar bolso de político fanfarrão. Entretanto, como jornalista, realista ou, como já me disseram esses dias, pessimista (foram os anos, eu reafirmo), eu não consigo enxergar legitimidade no movimento. Mais uma vez, as pessoas se uniram em prol de causas individuais e não pelo coletivo da nação. Doeu em seus bolsos e doerá nos bolsos dos seus filhos e netos. 

Os coxinhas agora dizem que somos todos um único povo, que é preciso aglutinar-se em torno de uma pauta única e lutar contra os grilhões de uma política autoritária. Eu, do meu lado, só consigo pensar que é aviltante ouvir esse tipo de declaração de quem, há um ano atrás, foi às ruas depor uma presidenta honesta, democraticamente eleita. Gente que bradou aos quatro ventos querer de volta a ditadura. Gente que bateu em mulher com filho de colo somente por estar usando vermelho em local e hora "errados" (será?!). 

Eu não acho que somos todos um único povo. Somos uma nação flagelada pela ignorância fomentada desde os dias de chumbo, pela luta diária e desarrazoada pelo pão do dia a dia e por não poder dar-se ao privilégio de instruir-se por prazer. Vivemos sob a alcunha de conglomerados midiáticos, profundamente influenciados e influenciadores da política malsã que tanto desacredita o nosso país. E a coisa só vai piorar (sorry!). Com a reforma educacional prevendo extirpar das salas de aula matérias-base como história e geografia, é provável que o nosso país caia ainda mais no abismo da estupidez contra a qual pessoas como meus pais, o Lula, a Marisa e até o próprio FHC (há controvérsias) lutaram quando da abertura política. 

Isso tudo foi para falar do depoimento do Lula, que foi lindo. Lindo como a ideologia que este grande estadista professa. Foi lindo ver seus olhos cheios de verdades, seus argumentos robustos dando nocaltes homéricos em perguntas formuladas para derrubá-lo. Foi lindo ver como suas crenças estão de tal forma enraizadas que não há maneira de dissociar um do outro. O Lula é e sempre será o mensageiro da boa-nova. Eu tenho cá minhas dúvidas se ele voltará a se candidatar em 2018. Como ele mesmo disse, são 71 anos de estrada e ele mal sabe o quanto de vida lhe resta. Ainda mais agora, depois de perder a companheira de lutas, de amor e de história. Acho egoísmo pedir isso de um cara tão gente boa como o Lula. Que ele lute por sua honra, pelo respeito às suas memórias e pelo não desmantelamento de sua história. Tê-lo como Presidente será apenas mais um lucro nessa fantástica aventura que é viver neste país. 

Lula Lá! - Sempre!

(Mariana Lira)


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O meu problema é que eu não consigo ficar calada. Isso é ponto pacífico. Sou boquirrota. Muita gente já me alertou acerta do fato de eu ser um verdadeiro pé no saco para quem não está nem aí. Outras gentes já me pediram para parar de reclamar e viver a vida. Mas, eu não consigo. Cresci sob a égide da contestação, criada por pais fãs de Chico e Elis e, iguais a mim, ávidos por um país melhor para todos nós. 

Hoje, entretanto, eu estou em choque. Esse sonho tão lindo, de construir uma sociedade multipla, está prestes a ser cancelado por vinte anos. Vinte anos nos quais os pobres serão mais pobres, a classe média vai ser apenas isso - mediana - e os mais ricos rirão da nossa desgraça. É a PEC 241 anunciando que os anos de chumbo estão prestes a regressar. Disfarçados. Bonitinhos. Quase democráticos. Mas vão voltar. 

Em linhas gerais, a tal PEC (Projeto de Emenda à Constituição) estabelece um limite de gastos para os próximos 20 anos. A partir de 2017, o orçamento do ano seguinte deverá ser estritamente igual ao do anterior. Caso o Estado não consiga cumprir com tais metas, as punições são, entre outras coisas, vedação à contratação de novos agentes públicos e à realização de novos concursos. Isso vale para os três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário. Salário mínimo será congelado. Educação e Saúde terão seus investimentos cortados na carne. Foda-se o mínimo necessário. Foda-se o objetivo de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Foda-se o Brasil. 

O pior é que, como a Globo (obviamente) não está divulgando, as pessoas nem ao menos sabem o que está acontecendo. Eu mesma já indaguei algumas pessoas sobre o conhecimento da PEC e elas simplesmente dizem que não estão sabendo. As perguntas comuns são "do que se trada?!" e a resposta mais vil é "poxa, que horror!". Mas nenhuma reação no sentido de se indignar verdadeiramente. É triste, deprimente e assustador. 

Enquanto isso, o Brasil, quebrado pelos esquerdopatas (foi o que os coxinhas disseram), empresta dinheiro ao FMI. E até p FHC se mobiliza para ir à imprensa afirmar que esta direitização radical pode ser a ruína do Brasil (credo). São tempos difíceis e eu não acredito em mais nada. 

Gostaria de bradar a vocês que eu acredito em uma reação consistente; que o povo, desacordado, irá despertar para essa coisificação de nossa essência, mas a verdade é que eu vejo um futuro sombrio. E vejo mais: o triunfar de um projeto desenhado lá atrás, ainda na promulgação da CF/88, quando o legislativo se deu poderes intermináveis. Parabéns aos arquitetos dessa nojeira toda. 

Eu não vou dizer que não sonho mais. É difícil pra mim não sonhar. Sou uma romântica incorrigível. Quero acreditar nas pessoas, na vida, num futuro lindo, colorido e plural. Quero crer que meu filho, que não é rico, terá, no futuro, a oportunidade de viver num país plural, com chances iguais para todos. Mas isso, num fundo, é puro romantismo. 

Meus heróis morreram de overdose. 



segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Às vezes, só às vezes, eu acho que vou enlouquecer. Você não?! Acho que sim, apenas não tem peito pra externar. Pois é. Vim ao mundo com esse defeito de fábrica: tudo em mim é excesso. Radical. Apocalíptico. Tempestuoso. Tudo em mim existe em carne viva.

Daí o meu achismo sobre a hipotética loucura. Mesmo em em silêncio o meu cérebro ferve. Questiona, brada, briga, reclama. Indaga como algumas coisas são possíveis do jeito que são. E por isso grita. Grita e é toda como louca, briguenta, insuportável. Às vezes eu não caibo em mim.

Pareço guardar, no.mais profundo.de mim, uma necessidade atróz de ser mais, de fazer mais, de poder mãos. Eu quero mais é não quero nada demais. É errado querer? Sonhar, brigar, lutar por um.querer estranho, cheio do desassocego de quem.não tem paz.

Por isso, às vezes acho que vou enlouquecer
 Meu peito tem muito o que gritar. Toda essa dor que vem de tantos anos, séculos distantes, amarga a boca de quem.ja não consegue falar. Sigo muda. Absurda, obtusa
Alheia de mim e do outro.

Daí a loucura passa. Eu respiro profundo e o peito se abre para o que deveria existir. Às vezes eu acho que vou enlouquecer - mas aí eu lembro que quero, um.dia, ser feliz.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Meu amigo Panda

Certo dia, eu conheci um médico que parecia um panda. Isso mesmo: um panda! Mas não qualquer panda: ele parecia com o Kung Fu Panda, o adorável urso Pô que ganhou trilogia animada e milhares de corações ao redor do mundo. Como mãe, o personagem me chegou através das intermináveis seções de desenho proporcionadas pelo meu filho e me provou que, sim, é possível aprender muito com o mundo encantado dos personagens lúdicos.

Tal e qual o Panda Pô, este médico não teve um início de vida fácil. Ainda bebê precisou lutar, praticamente sozinho, contra a morte, a qual tentava prematuramente sequestrá-lo. Foram meses enfiado em uma encubadora, seu corpinho diminuto cheio de fios e manchinhas roxas. Mas ele lutou. Foi um verdadeiro guerreiro. Já naquela época, dava sinais de que enfrentaria grandes batalhas e, de todas elas, sairia vitorioso.

A história do Kung Fu panda é similar. Nascido em uma harmoniosa família de pandas, a qual vivia em uma pacata vila no coração da China, ele foi abruptamente separado de seus pais pela sanha vingativa de um Pavão, o qual tinha como objetivo dominar todo o país. A mãe, por amor ao filho, deixou-o em uma embarcação, da qual não sabia o destino, e sacrificou a própria vida para mantê-lo a salvo. Por sorte, o barquinho levou Pô até o Ganso que seria o seu pai e o criaria com todo o amor.

Já adulto e sem memória dos acontecimentos de sua infância, Pô foi ao encontro de seu destino: tornar-se o Dragão Guerreiro. E, embora nem mesmo ele acreditasse que isso fosse possível, nunca desistiu, persistindo em seu objetivo. Seu Mestre e seus companheiros de kung fu mal podiam crer que um panda, gordo e atrapalhado, pudesse vir a se tornar o mais poderoso dos guerreiros da China. Ao terminar o treinamento e compreender o seu papel, Pô aprendeu que qualquer um poderia ser o que desejasse, bastava apenas um pouco de fé. E, pela fé em si mesmo e no mundo, o panda tornou-se o maior guerreiro da China.

Nas sequências, Kung Fu Panda 2 e 3, a animação apenas reforça os valores os quais tão brilhantemente ensina: que qualquer um pode alçar seus objetivos; que o que vale é o caminho, mesmo que o início da história não tenha sido bom; e que não é possível fugir de nossa essência, daquilo que estamos predestinados a nos tornar. Na terceira e última parte da saga, o Panda finalmente reencontra seu pai e membros de sua família. Entra, enfim, pela primeira vez, em contato com seus iguais. E, mais uma vez surpreendendo, ensina às crianças a importância de se respeitar as diferenças e de crescer pela diversidade e pelo amor. Só assim, então, ele compreende e aceita a sua essência de verdadeiro mestre das artes marciais – e se torna, em corpo e alma, o que sempre esteve predestinado a ser: o Dragão Guerreiro.

Assim eu também enxergo este médico. Eu não sei se ele entende tudo isso. Na verdade, acho que se chateia pois deve crer que o apelido tenha mais haver com as semelhanças físicas e DIVERTIDAMENTE comportamentais. Eu gostaria apenas que ele visse o que eu vejo. Que o fato de ele ser um panda o faz ser ainda mais amado por todos – pois todos amam pandas, isso é fato! Entretanto, há mais! Muito mais! Ver nele o Panda Pô significa, também, enxergá-lo como o Dragão Guerreiro. Como o valente cavaleiro que nunca desistiu de seus sonhos, que acreditou em si mesmo desde o início e que fez de sua história apenas um caminho para que viesse a se tornar o mais belo dos profissionais - aquele que se doa pelo outro, para o outro, numa luta incessante pela vida.


Tal e qual Pô, este médico nunca abandonou seus ideais, seus valores ou seus amigos. Sempre esteve ao lado da verdade, da ética e sempre, sempre foi pela maioria. Muitas vezes colocou-se em segundo plano e fez das tripas coração para se doar por inteiro, sem receber nada em troca, apenas por ter plena ciência da grandeza de seu papel na vida. Seu jeito divertido só deixou a caminhada mais leve e muito mais atrativa. Então, viva ao Doutor Panda! E que o mundo fique repleto de mais e mais pandas – vivemos em tempos nos quais precisamos de muitos Dragões Guerreiros.

É carma, é sarna ou é só piada da vida mesmo

Existem abandonos que se perpetuam no tempo, como lembranças esquisitas do quão inaceitável é a sua presença naquele contexto. São abandonos tácitos, erigidos sob a égide do despreza, do desamor e da descrença. Tácito, mas não velado. Na verdade, é um abandono latente e cruento, o qual grita todos os dias a desimportância da tal existência. É preciso resiliência, todos dizem. Fé no homem, fé no que virá. Mas tudo que a gente consegue é acordar de madrugada e se perguntar que piada filha da puta é essa, que nunca acaba e somente nos mata mais um pouquinho todos os dias. Existem abandonos que são um nascer-se e ser rejeitado todos os dias - como o filho indesejado de algo que não era pra ser.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Meu coração fica do lado Esquerdo do peito



Nasci e cresci num bairro simples - a Campina do Barreto -, na zona norte do Recife. Morava com meus pais, bem perto de uma tia e dos meus avós paternos. Vivia cercada de primos, de sol e de muito carinho. É dos meus anos de meninisse que eu guardo mais saudade. Entretanto, acima de tudo - do carinho, do amor, do cuidado -, eu vivia cercada de valores. Aprendi, desde cedo, que todos nós, sem exceção, somos iguais e que não há no mundo ninguém melhor ou pior do que o outro (com algumas poucas exceções). Desde cedo, entendi que era melhor dividir para multiplicar e que a vida se faz com muita luta, honestidade e garra. De outro modo não dá.

A década em que nasci, os idos anos de 1980 e companhia, foi apelidada de perdida. O país estava quebrado. O milagre econômico dos militares implodiu, como uma bomba atômica, mostrando os mandos e desmandos dos anos de chumbo. Convivíamos com uma inflação entre 200 e mais de 400%, salários congelados e com a necessidade do abastecimento de contingência, pois temia-se a subida vertiginosa e repentina dos preços e o consequente desabastecimento. O cálcio era garantido nas famosas filas do leite e as pessoas se tornaram os "fiscais do Sarney", uma tentativa que partiu de uma população esfacelada pela guerra econômica.

Mas criança é blindada dessas coisas, né?! E eu pouco me lembro desses momentos funestos da minha história. O pouco que sei se deve ao enorme esforço que meus pais fizeram para que nós tivéssemos memórias e não nos tornássemos anencéfalos. Do que eu me lembro bem é de ouvir, na vitrola dos meus pais, o Chico, o Caetano e o Vandré entoando gritos de ordem que marcaram uma época. Quando criança eu não sabia, mais de 80 a 85 ainda convivíamos com mortes, tortura e desaparecimento daqueles que ousavam lutar por um outro país. Quando me dei por gente e pude entender tudo o que havia acometido o Brasil naqueles vinte anos negros, tomei asco por essa gente - a qual se acha mais gente do que nós, pobres mortais.

Cresci, tornei-me petista, admiradora das causas sociais e militante - hora ativa, hora paciente e adormecida. Mas sempre militante. Não poderia ser diferente, visto que meu coração fica do lado esquerdo do peito. E é por isso que esse músculo saltitante petrificou-se ao ouvir, quando da votação tresloucada pela abertura do processo que visa ao impedimento da Presidente (honesta, valente e cabra da peste), a homenagem do "excelentíssimo" senhor Deputado Federal (representante do povo, viu?!?!) Jair Bolsonaro ao falecido (graças a Deus) Coronel Ustra.

A citada figura foi chefe comandante do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) de São Paulo, no período de 1970 a 1974, e tornou-se, em 2008, o primeiro militar do período ditatorial a ser enquadrado legalmente como Torturador. Foi esta figura a quem o digníssimo deputado citado rendeu suas homenagens Ustra foi comprovadamente acusado de torturar mulheres, inclusive grávidas, com práticas de uma crueldade acima de qualquer perversidade imaginável - enfiava ratos em suas vaginas; as amarrava com fios desencapados e as eletrocutava; deixava-as nuas, em pelo, moribundas, em salas escuras a apodrecer com seu próprio sangue e com suas fezes. Uma de suas vítimas, por sinal, foi a senhora Presidente da República Dilma Rousseff.

Por isso, e por muito mais (que, de tanta coisa, não caberá neste texto), é que eu me sinto na obrigação de tornar-me, mais uma vez, militante ativa. Quero e preciso militar pelo país dos sonhos torturados da Dilma. Nem tanto como militante, mas mais como mulher e como mãe, sinto-me na obrigação de lutar contra essa sociedade apodrecida a qual nos tornamos. Até para no futuro não contradizer os ensinamentos que, hoje em dia, procuro incutir em meu filho. Somos todos iguais. Temos, todos nós, na mesmíssima proporção, direitos e deveres os quais precisam ser respeitados. Porque, caro leitor, quando a gente se põe do outro lado, perde a chance de exercitar a humanidade que Deus nos deu. Perde a oportunidade de construir um mundo melhor. Perde, por fim, o direito de ter qualquer direito.

Por ser essa mulher - e por todas as outras mulheres que lutam diariamente -, hoje e sempre eu serei Dilma. Para que no futuro eu possa ser Mariana - de cara e de consciência limpas.

Mariana Lira