segunda-feira, 26 de março de 2018

tTudo é silêncio nesse turbilhão dentro de mim



Dia desses, estudando o nosso português, língua materna, li que o discurso centrado no "eu" pode passar a ideia de individualismo exacerbado e de certo pedantismo. Eu, no entanto, não consigo sair de mim. Esse espaço aqui dentro, que é só meu, tem sido, nos últimos tempos, o único que me comporta. Ando fazendo esforço demais para me encaixar em espaços os quais, eu sinto, não me abrigam. 

Não mais. 

Sigo lutando, assumo, para caber nesses recônditos do outro por muitas razões, tantas, tão díspares e confusas, que eu não sou capaz de listar. Apenas sigo, absorta nesse tudo que não sou eu, para manter as bases de uma estrutura que, eu sou capaz de jurar, qualquer hora quebra. 

Qualquer hora dessas eu vou desabar. 

O discurso do nós, agora, me parece tão distante. Tal e qual a uma falácia, ele me soa cínico, sarcástico e mordaz - a grande piada da (in)tolerância. O nós não quer ser coletivo. Ao contrário: ele continua a delimitar seus espaços, me fazendo ter a certeza de que desse nós eu não participo mais. Talvez nunca tenha sido parte, enfim. 

Busco, por hora, a minha paz. 

Essa sensação de plenitude, sobre a qual os filósofos e praticantes de yoga tanto falam, nunca foi minha. Esse sentimento de se estar onde deveria estar nunca me pertenceu. Sinto-me deslocada, descolada da imagem - que deveria ser eu! - mas somente reflete o outro. 

O nós e eu. 

Tudo seria fácil se a gente pudesse voltar a fita. Imagina apertar um botão e recomeçar a vida? Lá, naquele ponto específico (e que a gente sempre sabe qual é), quando deveríamos ter escolhido o eu, ao invés do nós. O nós nunca foi eu. É o retrato quixotesco do que a minha vida se transformou. 

São meia noite de uma segunda-feira qualquer e todos os meus pensamentos estão misturados, agitados, correndo doidos pelo meu cérebro pragmático. Dançam, bem na minha frente, contas, balanços, amores e decisões que precisam ser tomadas. Gritos de independência que precisam ser expelidos. Cordões que precisam ser cortados. Passos que precisam ser caminhadoa. Enquanto isso, estou estática - a grande dicotomia de correr e nunca sair do lugar. 

Eu bem sei o que deveria ter feito. Sei, também, o que deveria fazer agora. Tento me dar ordens. Recorro a Deus. Silêncio. 

Tudo é silêncio nesse turbilhão dentro de mim

sexta-feira, 16 de março de 2018

O amor que grita


Amor, amor mesmo, de verdade, é um troço engraçado. Mesmo quando inerte, guardado, ele se mantém vivo, na esperança de um dia, enfim, ir além. O amor quer simplesmente existir. 

Como dizia o Vinícius, com seus versos de magia e encantamento, amor, que é amor na vera, é "eterno enquanto dure", mesmo que não seja imortal, "posto que é chama". Esse sentimento enlouquecedor, arteiro, que brinca com as entranhas do sujeito, só não quer passar despercebido. Não quer morrer sem ter nascido. Sem nem mesmo ter feito a felicidade - ou o sofrimento, que seja -, de um qualquer transeunte desavisado. 

Ele se reinventa com o passar dos anos, fazendo de farândola aqueles que lhe ousam desafiar. "Desnorteia os astros", e "segue indiferente, indiscritivelmente são". Quem passa pelo amor e não fica, não se demora, termina com a pele sofrida, rasgada pelo sentimento que tudo arraiga e destrói. Amor é perigoso, anjo travestido, caído, que confunde as demandas de quem só quer seguir em frente. 

Com o tempo, eu acabei aprendendo que, na verdade, existem várias espécies de amor. Eles têm cores e dores diferentes, graus diversos de persistencia e uma existência que depende sobremaneira de sua intensidade. Aprendi que os grandes amores não são os bons, verdadeiramente. Eles cegam, trocam os
rumos, embaralham as diretrizes e deixam cicatrizes que, de fato, nunca fecham. 

Já o amor maduro, perene, não tem essa intensidade grandiosa. Mas é o amor que salva, que fica e que se faz ficar. Ao contrário do amor intenso, imenso, ele se eterniza nas pequenas coisas do passar dos dias. Nos perdões silenciosos pelas muitas patadas da rotina, nos pequenos cuidados escondidos atrás de gestos aparentemente inóquos, num cuidar despretensioso e continuo, numa certeza de não sei o quê, a qual obriga o sujeito a pagar o preço e a persistir. 

É bom experimentar o amor arraigado. Acho bem saudável conhecer a nossa capacidade de amar em demasia. Mas a vida acontece na realidade da nossa existência, tão crua e às vezes nem tão atraente. E quem fica depois de conhecer o pior de um outro qualquer é, por certo, o grande amor da sua vida.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Suruba Brasileira: os patos de 2015, os bitolados do PT e o grande truque do agendamento midiático.





2015 foi uma ofensa ao Chico Buarque e à retomada democrática, a qual se deu entre os anos de 1983 e 1988. Explico: em março de 2015, o dito povo brasileiro saiu às ruas vestindo blusas amarelas e batendo suas panelas, numa esdrúxula alusão ao movimento “Diretas Já”, o qual clamava por eleições diretas, com o fim de pôr cabo aos grilhões dos anos ditatoriais. Enforcada desde a revolução de 1964, quando, autocraticamente, o país foi tomado de assalto por uma direita militarista e sanguinária, a população estava sedenta por liberdade – de ir, de vir e de viver até. A solução foi sair às ruas e, em uníssono, pedir pela devolução do poder ao seu titular de direito. Nos palanques espalhados por todo o Brasil, a sociedade se uniu em peso: religiosos, políticos, empregadores e empregados, todos, sem exceção, rogando pelo fim da grande repressão.

O Chico, militante ativo que era, escreveu, então, os versos os quais, até hoje, são tidos como um hino do processo democrático. “Pelas Tabelas”, canção que abre o disco “1984” do Buarque, fala de um homem que busca, desesperadamente, por uma mulher em meio à passeata que se deu em 16 de abril de 1984. Saindo da praça da Sé em direção ao Vale do Anhangabaú, em São Paulo, um milhão e meio de pessoas desejavam, juntas, poder votar para presidente. O objetivo do movimento era pressionar o congresso a aprovar a Emenda Constitucional Dante de Oliveira, permitindo, assim, que, no ano seguinte, fossem realizadas as primeiras eleições democráticas em duas décadas. Mesmo não tendo logrado tal êxito, a manifestação não foi de todo em vão. Em 1985, uma eleição indireta de uma chapa civil foi realizada, tendo eleito como Presidente o falecido Tancredo Neves e, em 1989, foi conquistado o tão sonhado sufrágio universal.

Com inteligentes analogias, Chico usou o termo “pelas tabelas” para conectar diferentes interpretações, num jogo de cintura essencial para driblar a censura da época. No trecho “...quando vi a galera de pé aplaudindo as tabelas...”, o cantor provavelmente referia-se ao futebol da seleção canarinho na copa de 1982, a qual, contraditoriamente, não ficou nem entre os 5 primeiros colocados. Em outro trecho, quando fala “...eu jurei que era ela que vinha chegando com minha cabeça já pelas tabelas. Claro que ninguém se importa com a minha aflição...”, o também compositor dá a atender que teme pela perseguição do que a época era chamada de “Dura”, a polícia do golpe.

Em um outro trecho, Chico afirma “... quando vi um bocado de gente descendo as favelas, eu achei que era o povo que vinha pedir a cabeça do homem que olhava as favelas, minha cabeça rolando no maracanã...”, tecendo um emaranhado caminho para criticar um movimento que, talvez, não estivesse sendo propriamente popular ou completamente a serviço do povo. E mais uma vez escapole quando insinua que sua cabeça, na verdade, estava com todas as atenções voltadas para o futebol. Crítica atrás de crítica; com uma porrada em cima da outra, Chico nos presenteou com um hino difícil de cantar, cujo ritmo aumenta a cada nova estrofe, denotando a urgência de uma época histórica.

Depois de tamanha introdução, é preciso, agora, explicar por que 2015 foi uma ofensa a tal composição. Naquele ano, milhares de pessoas (os patos do novo golpe), novamente vestindo blusas amarelas (todas elas da seleção), foram às ruas, cantando o hino nacional, empunhando a bandeira brasileira e gritando palavras de ordem contra a corrupção. O curioso é que todo este movimento tinha como fim derrubar um governo democraticamente eleito, no qual havia liberdade de expressão, direito de ir e vir e que dava continuidade a um projeto, iniciado em 2003, de empoderamento das classes mais pobres brasileiras. O país havia saído do mapa da fome da ONU; a dívida externa tinha sido paga; os cofres públicos estavam com superavit; o salário mínimo subia acima da inflação; mais e mais pessoas puderam ter acesso à formação superior; e os pobres começaram a andar de avião, usar marcas antes somente das classes mais abastadas e acreditar que o mundo, enfim, era para todos – e não apenas uma minoria.

Esta minoria – o 1% que concentra a maior parte da riqueza brasileira -, provavelmente se viu muito incomodada com essa mescla de classes, nunca antes vista neste país (só para usar um bordão do Lula). A mídia, em polvorosa, uniu-se à classe política que apoia as grandes fortunas e os grandes empresários, e, aos poucos, sedimentou nas pessoas a certeza de uma crise econômica a qual derrubaria o país. Parêntese: você sabia que é assim que uma crise econômica se inicia? Alguém muito influente começa a afirmar que vai faltar dinheiro no mercado; as outras pessoas – as quais confiam em sua opinião -, então, retêm suas economias, na esperança de protegê-las de uma eventual desvalorização. Assim, o dinheiro para de circular e os bens de consumo deixam de ser vendidos, abarrotando os estoques das empresas e seus empresários de dívidas. Pronto. Está instalada a mais nova crise econômica. Fecha o parêntese.

Com a suposta crise econômica instalada e o apoio massivo dos meios de comunicação – que, ou pertencem aos políticos, ou aos grandes empresários os quais integram aquele 1% dos mais ricos -, ficou fácil desacreditar um governo que, meses antes, tinha a aprovação da maioria dos cidadãos. As passeatas de 2015 estavam repletas de gente que nem sabia contra o quê estava protestando. Estavam com medo. E o medo é a melhor forma de manipular um povo educacionalmente fraco. No meio disso tudo, teve espaço para apoio ao Ustra (https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Alberto_Brilhante_Ustra), pedidos pela volta da ditadura, gente fazendo coreografias grotescas, com músicas pedindo o fim da corrupção, apologia ao estupro da Dilma Roussef, nossa então Presidente da República. Nada se discutiu acerca de melhorar a educação, fazer uma reforma política ou escolher melhor nossos representantes. O único objetivo era derrubar a figura que, à época, representava o Partido dos Trabalhadores (PT). Dormia, então, a nossa pátria, tão distraída.

Em 2017, depois da deposição da presidenta democraticamente eleita, a aprovação de uma reforma trabalhista a qual somente prejudica o pequeno trabalhador, e na iminência de uma ainda mais nefasta reforma da previdência, pululavam, na mesma mídia de 2015, denúncias com provas muito contundentes de políticos, ditos moralizadores da nação, envolvidos em crimes de toda ordem, inclusive tráfico de influência e ilícito de entorpecentes (considerado hediondo em nosso atual ordenamento jurídico, para o qual não há fiança ou anistia). Todas elas – as denúncias -, foram abafadas, assim como o clamor daqueles que se diziam contra a corrupção. Calaram-se, também, as panelas que deram o ritmo dos acontecimentos dantescos do fatídico 2015.



Hoje, o país está aos frangalhos. A crise econômica finalmente se instalou. A gasolina sobe toda semana, assim como itens essenciais da cesta básica. Não há mais segurança jurídica, já que o órgão supremo do nosso judiciário muda seus entendimentos como quem vai na esquina. A certeza da impunidade daqueles cujos crimes foram comprovados, diminui ainda mais a autoestima e a crença do brasileiro numa melhora consistente do país. 2018 é o primeiro dos 20 anos de medidas restritivas, impositivas quanto ao corte de gastos em áreas essenciais para os mais pobres, como saúde e educação públicas. Os crimes de ódio aumentam na proporção do crescimento da desesperança. A intervenção militar no Rio de Janeiro apenas revela duas facetas de uma mesma moeda – que o medo, novamente, é a melhor forma de intimidação, pois com ele se fortalece a confiança nos aparatos de repressão e segurança; e que estamos na iminência de uma provável desconstrução definitiva do processo democrático conquistado com o sangue e as lágrimas de milhares.

Hoje, pela manhã, participando de uma roda de discussão sobre política, ouvi o que, para mim, já não vigorava. Falava-se acerca da aliança de Paulo Câmara a Jarbas e a João Paulo, no intuito de enfrentar o pleito que se aproxima e conquistar a reeleição para governo estadual. Uma observação me chamou bastante atenção: a de que João Paulo não poderia integrar tal aliança, por representar o “famigerado” Partido dos trabalhadores (PT). Contra-argumentei, pois João Paulo saiu de seus dois mandatos como Prefeito da cidade de Recife, capital pernambucana, com a aprovação de mais de 90% da população. Seu governo acabou com os deslizamentos nos morros, levou saneamento básico para as comunidades mais carentes, melhorou o ensino e a estrutura das escoolas públicas municipais e levou a discussão sobre a gestão pública da cidade até o cidadão, através dos Conselhos Públicos. Tudo era decidido democraticamente e o povo reconheceu isso. Não sabendo o que dizer, a pessoa em questão apenas reafirmou: mas ele ainda representa o PT e isso deve significar alguma coisa.

Eu estava redondamente enganada. Os patos de 2015 não morreram. Apenas estão escondidos nas cascas de seus próprios ovos, esperando apenas a próxima tresloucada manifestação para vestir suas camisas amarelas. Ahhh … esse ano tem copa do mundo.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Só as mães são felizes



Nunca mais vou poder ter filhos.

Eis a constatação mais dura. A afirmação que eu nunca quiz fazer. Aquela que eu evitei, mesmo quando em silêncio, pois queria acreditar que eu teria uma segunda chance. A chance que eu não me dei de ter a gestação dos meus sonhos. Meus sonhos viraram pó, junto com a estridência dessa afirmação.

Heitor vive me pedindo irmãos. É de cortar o coração ouvi-lo afirmar que é sozinho e não tem companhia para brincar. Moramos num edifício de velhos. Todos velhos, carrancudos e sem nenhum netinho. Passam direto por cada um de nós sem dar bom dia ou boa noite. Quando falam algo, é para pedir ou reclamar de alguma situação. Os velhos do meu prédio não atendem às necessidades de Heitor.

Quando ele nasceu, eu prometi pra mim mesma que iria dar-lhe o mundo. Que consertaria os erros de um passado recente e ergueria um castelo só nosso, como nos meus mais belos devaneios. O esforço pra ser aprovada num concurso fazia parte desse plano, uma tentativa de criar a realidade com a qual eu tanto sonhei.

Entretanto, os anos se passaram. Passaram voando, eu posso jurar. As muitas horas sentadas em cadeiras de todos os tipos, lendo quilos e quilos de direitos os quais apenas funcionam nos escritos, a hipermetropia que se agravou e os resultados que nunca chegaram, me fizeram perder os primeiros anos de Heitor e as esperanças de, um dia, vencer. Falta-me tempo. E um tanto de amor. Próprio e do outro. Mas sobre isso eu falo depois.

Nunca mais vou poder ter outro filho. Estou com 36 anos, correndo atrás de uma vida que parece fugir das minhas mãos. Preocupa-me o futuro que eu prometi a meu filho e, ao que parece, nunca vou poder lhe dar. Como posso, então, pensar em ter outro filho?

Eu fiz o meu melhor - e o meu futuro eu sei de cór.


sábado, 17 de fevereiro de 2018

Cinderela, o conto da carochinha e o monstro do nunca ser feliz.


CINDERELA, O CONTO DA CAROCHINHA E O MONSTRO DO NUNCA SER FELIZ

Era uma vez, num mundo adoecido pela indiferença, uma geração de mulheres criada sob a égide de falsas promessas. Todas elas – em maior ou menor grau -, cresceram ouvindo o conto da carochinha sobre uma vida sem qualquer magia ou graça, caso não possuíssem três elementos fundamentais: beleza extrema (ditada por um padrão inatingível); doçura agigantada (sem poder reclamar de nada – deveriam viver sempre sorrindo); e um homem o qual quisesse amá-las e salvá-las das bruxas más ao longo da vida (pois elas mesmas, sozinhas, jamais seriam capazes de tamanho feito). E, assim, criou-se uma horda de mulheres com a autoestima abalada e sem a real noção acerca da própria força.
Seria um (estranho) enredo de contos de fada caso não fosse a verdade nua e crua. As meninas nascidas nos idos dos 1970/1980 foram criadas sonhando em ser as princesas da Disney e, assim, quem sabe um dia, ser salvas por príncipes másculos, os quais transformariam suas vidas: as tirariam de calabouços; as despertariam de um sono profundo; as salvariam de dragões medonhos; as protegeriam dos monstros da floresta escura. As estórias, cada uma delas, malevolamente, davam conta de mulheres muito frágeis, desprovidas de força interior e, na maioria das vezes, sem qualquer personalidade. Existiam apenas para serem salvas. Depois disso…. bom, depois disso elas seriam felizes para sempre.
É o que a Psicóloga e Escritora Colette Dowling chamou de “Complexo de Cinderela”, em seu livro homônimo (editora Melhoramentos), na tentativa de explicar e compreender o número enorme de mulheres infelizes que se multiplica, em proporções geométricas, ao redor do mundo. Todas elas, com idades entre 30 e 50 anos, parecem sofrer de uma infelicidade generalizada, a qual Colette atribuiu à uma educação castradora, voltada para a dependência do outro. Depressão é uma constante. Assim como também o é um profundo desalento quanto a própria imagem refletida no espelho. Muitas se perguntam secretamente o que fizeram de errado: namoraram, foram gentis com marido, sogra, cunhada, papagaios; encontraram um ofício e o tal príncipe; casaram-se vestidas de princesas. Mantiveram o status e a beleza. Depois esperaram fervorosamente pelo “felizes para sempre” que, de fato, nunca veio.
Acontece que os autores dos famigerados contos de fada esqueceram-se de preencher lacunas importantes. Deixaram de esclarecer, por exemplo, a desnecessidade da vida ser uma espera interminável pelo mágico salvamento; não mencionaram que, além do matrimonio, há muito mais para ser vivido: festas, viagens, novos trabalhos. Negligenciaram a verdade da nossa passagem por aqui: a existência precisa ser vivida sem muitas expectativas, sendo urgente se aproveitar o momento, sem acreditar na máxima do “felizes para sempre”.
As tais fábulas nem mesmo explicaram que os tais príncipes nem eram tão encantados assim (não poderiam ser, coitados!): eles nem sempre seriam gentis, educados e corteses; muitas vezes magoariam aquele coração o qual tanto se guardara para ele; iriam arrotar e peidar bem nas faces apaixonadas de suas amadas; esquecer da data do casamento e, na pior das hipóteses, procurar outra princesa. Depois do “enfim sós” não havia a prometida felicidade eterna. Somente um terreno desconhecido, repleto de obstáculos para os quais aquelas mulheres simplesmente não estavam preparadas.
O resultado de tanta insatisfação com este depois pode ser constatado, por exemplo, na alta taxa de divórcios (que, em 2015, cresceu impressionantes 160%!) e, infelizmente, no índice alarmante de suicídios entre as mulheres – responsável pela morte de 2.5 mulheres a cada 100 mil habitantes. Foi o que concluiu Dayse Miranda, Pós-doutora em ciências políticas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Ela ainda descobriu que o suicídio feminino é precedido por mutilações corporais, as quais denunciam uma autopunição pelo excesso de cobranças da sociedade – é preciso ser uma mulher perfeita, uma mãe zelosa, uma dona de casa resoluta, uma esposa versátil, uma trabalhadora incansável e ainda conservar-se bonita e feliz o tempo todo (ufa!!). Não é de se espantar que tantas estejam preferindo dar cabo da própria existência.
Eu sou uma dessas mulheres-cinderela. Sofri durante muito tempo com expectativas que, à época, eu nem mesmo sabia não serem minhas. Acreditei por anos a fio que minha infelicidade seria resolvida com o casamento certo, pelas mãos do príncipe dos sonhos. Entretanto, como era de se esperar, eu me perdi no depois. Não entendia como a maternidade poderia ser tão dura – perdi o corpo o qual sempre fiz tanto esforço em manter -; meu emprego não era divertido, nem o salário dava pra pagar todas as contas; e o marido estava longe de ser encantado. Eu fui uma dessas mulheres a qual chegou a cogitar o suicídio e só não o fiz por ter sabido pedir ajuda quando estava prestes a desistir de tudo. Eu gritei em desespero e o mundo – ainda bem! -, ouviu meu chamado.
O meu apelo é para as meninas de hoje – pois tenho percebido um retorno perigoso desses (teoricamente) inofensivos contos de fada. Maliciosamente, eles foram transformados em filmes, estrelados por mulheres reais – creio eu, na tentativa de frear o processo de empoderamento feminino que, a galope, já começa a nos ultrapassar. Eu digo a vocês: não existe um felizes para sempre! A vida acontece a cada minuto, justo neste instante enquanto eu escrevo essas linhas tortas ou você as lê, no escuro do seu quarto, na faculdade, no parque ou onde quer que esteja. Você não precisa ser salva! Cada mulher é uma grande fortaleza, com ferramentas capazes de derrotar madrastas malvadas, bruxas assustadoras e dragões horrendos. O príncipe (ou princesa) também está morrendo de medo – salvem-se mutuamente! A beleza está na individualidade e nas peculiaridades de cada um – ame-se, adore-se, cuide-se! E mande docemente se lascar quem quiser lhe impor um padrão o qual não cabe em você. Seja feliz, menina! E viva!

(Mariana Lira - para o site "Vigor Frágil"  
http://www.vigorfragil.com.br/2018/02/06/cinderela-o-conto-da-carochinha-e-o-monstro-do-nunca-ser-feliz/#a-comments)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

É de fazer chorar



Não fui ao carnaval em 2018. Fui, sim, a várias prévias, blocos perdidos pela cidade. Mas não fui ao meu carnaval. Às ladeiras da minha Olinda, que outrora me acolheram tão calorosamente. Não ouvi o frevo escaldante, que entra pelo cabelo e acaba no pé. Não fui contagiada pelo tsunami de energia de milhares de pessoas sendo felizes juntas. Este ano, estou órfã de carnaval. 

Foram tantas as razões que eu não sei mesmo precisar o porquê dessa abstinência de Olinda. Não ter com quem deixar o filho, estudos (forçados) acumulados, país precisando de acolhida, grana curta. Todos tão díspares e misturados que não seria mesmo preciso delimitá-los. No fim das contas, há tempos tenho medo das loucuras de Olinda. 

A última vez que estive no sobe e desce daqueles caminhos de paralelepípedo e óleo de baleia, precisamente há seis anos atrás, dei de cara com o encontro continental do Elefantes de Olinda e do Eu acho é pouco. Tudo isso, esse marzão de gente, subindo ou descendo a ladeira da prefeitura. No meio, bem no encontro eletrizante daqueles dois gigantes, estava eu - eufórica e apavorada, tentando sobreviver às suas passagens. De súbito, quando percebi, estava jogada no chão, gritando sem ser ouvida, quase pisoteada por uma multidão que só queria cantar e seguir. Foram 10 ou 20 segundos. Talvez mais, talvez menos. Mas depois disso, fiquei estremecida com o frisson das ladeiras da Marin dos Caetés. 

Este ano, entretanto, voltei a ouvir o chamado de Olinda ecoar dentro do peito. Seus tambores ressoando ferozes, num batuque de tirar o sono, a paz e o juízo. Dentro de mim, Olinda gritou, me chamando, quase em desespero. E eu, atônita, não pude atender ao seu chamado. As minhas ladeiras de Olinda, este ano, vão ter que ficar pra depois. 

Há certas renúncias muito doloridas de se fazer. São negativas à nossa própria essência, às nossas raízes. Uma dor tão imensa que não poderia ser exigida por ninguém, de ninguém. Tais renúncias nos fazem perder a referência de mundo que nos trouxe até este instante. A gente perde o rumo, o prumo, e passa um tempo desnorteado, sem saber como seguir. Perder as ladeiras de Olinda foi dessas renúncias que não poderiam existir. E isso eu não desejo pra ninguém. 

Ano que vem, quem sabe, quando os tambores começarem a tocar nas ladeiras de Olinda, eu possa ouvi-los, atenta, vestir a fantasia e partir, em êxtase, para minhas ladeiras. Este ano, reclusa, sonharei, tristonha, com o frevo que me transporta pra lá. Quem sabe assim, em devaneio, eu possa vivenciar a loucura colorida da massa, ver o Alceu na sua sacada, suar junto com tantos desconhecidos, cansar as pernas naquelas subidas enfurecidas e depois retornar tranquila para a existência de todos nós. 

domingo, 7 de janeiro de 2018

(re)memorando





Estou (re)visitando minhas águas, passadas
(Re)vivendo as memórias que o tempo me roubou
Espremendo, exprimindo, imprimindo em mim as muitas marcas de tudo aquilo que eu não vivi.
Nessas águas tortuosas desse rio que sou
Há pequenos redemoinhos revoltosos, novos e velhos caminhos
Os quais se entrelaçam,
desenlaçam,
destravam e
desfazem os nós
- estes que me acorretam aos grilhões de um amanhã sem fim.
Meus suspiros estão abarrotados
- de saudade, de desejo, de anseios,
tantos (milhares) de enganos
Mas, como saber o certo sem a incerteza das aventuras?
Como conhecer o céu sem nunca ter provado o fel?
Como saber-me Santa sem conhecer-me a outra - leviana?
Sigo (re)vivendo,
(re)aprendendo,
 (Re)conhecendo,
me (re)conduzindo
ao encontro de mim, no depois.
Amanhã?
- Só Deus sabe por onde este rio andará.

(Mariana Lira)